Ensaio Sobre a Cegueira

Título Original- Blindness
Título Nacional- Ensaio Sobre a Cegueira
Diretor- Fernando Meirelles
Roteiro- José Saramago/Don MacKellar
Gênero- Drama/Mistério
Ano- 2008

O ser humano sem máscaras…

Não que nunca se tenha tentado antes, não que nunca outro filme já tenha retratado as facetas do homem quando encurralado e sem opções, desprovido de esperanças, mergulhado no completo desespero. É nessa situação que Ensaio Sobre a Cegueira mergulha e retrata, sem pudores, sem medo. Até aonde pode ir ou mesmo poderia ir o ser humano em situações extremas. O filme é baseado na obra de José Saramago que trata de uma “cegueira branca” repentina que começa a afligir a população e não tem explicação lógica ou científica a princípio. Nesse momento inusitado em que todos são pegos de surpresa o filme passa a relatar o drama da sociedade frente a algo inexplicável e que limita as capacidades do homem por demais.

A história começa com um japonês ficando cego no meio do trânsito, daí já podemos ver algum prelúdio do que está por vir. Um estranho, muito solícito, a princípio, se propõe a ajudar a levar o carro dele até sua casa já que aparentemente ele não conseguia ver. Nada mais que um malandro querendo tirar proveito da situação. Chega a ser um pouco revoltante e estarrecedora a situação, mas nada mais é que a pura verdade do que o ser humano pode fazer quando vislumbra uma oportunidade de lucro com baixo risco de que algo aconteça de volta. Daí por diante a cegueira começa a se alastrar por todos os demais.

Nesse meio tempo a história se volta ao casal protagonista composto por Julianne Moore e Mark Ruffalo, ele médico, fica cego logo no princípio e ela não fica e segue com ele para ajudá-lo naquele momento de dúvida e agonia. Chegando ao abrigo temporário organizado pelas autoridades a esposa já começa a se deparar com a realidade de como será aquele ambiente. Logo no princípio já começam discussões, a intolerância impera, as pessoas começam a rejeitar sugestões e a tentativa de pensar racionalmente. A regressão para o primitivo começa a dar seus primeiros sinais de contágio.

O filme, de fato, trata de como o homem veste uma máscara de civilidade e de pretensas boas maneiras, mas que no fundo, em sua grande maioria, ainda não deixou aquele instinto animal meio que irracional completamente apagado. A lógica dá lugar à estupidez, a lei do mais forte começa a imperar rapidamente e abusos de autoridade, intolerância e supressão de desejos comunitários começam a tomar lugar, ao invés do social e comunitário. As pessoas simplesmente regridem ao estágio mais primitivo de fato, não se preocupando com asseio próprio ou com qualquer dose mínima de educação, tudo é substituído pelo primal. O desejo sexual sem limites, o instinto de sobrevivência sem controle, a ganância desmedida, tudo de pior do ser humano é posto em destaque.

Nesse mar de loucura Julianne Moore vê atônita toda àquela situação e até consegue controlar seus impulsos naturais melhor, mas também chega ao seu limite e talvez se a situação de encarceramento a que foram submetidos os doentes durasse algum tempo mais, com certeza ela também se renderia à loucura. O filme trata da incapacidade dos governos em agir organizadamente nessas situações, de buscarem alternativas racionais de ação, tudo é muito abrupto e egoísta, sempre pensando no bem-estar deles. O abandono a que foram relegados os doentes é impressionante e põe em questionamento várias situações que podem ser adaptadas à realidade presente, como a incapacidade dos governos em conterem a violência, a fome, as desigualdades sociais entre outros graves problemas que afligem o mundo como um todo, em maior ou menor grau, dependendo da localidade.

Como tudo na vida, nem tudo são flores, ou nem tudo é maravilhoso e altamente intelectual em Ensaio Sobre a Cegueira. O filme que foi muito criticado por alguns meios de comunicação internacionais de certo renome (New York Times, por exemplo) tem seus defeitos sim, talvez não no grau de intensidade destacado por estes meios de comunicação. É inegável que o filme é para um nicho bem específico, o filme é muito denso e não conta com nenhum momento de alívio de tensão ou seriedade, sem contar que a narrativa se passa de forma um pouco arrastada e o apego aos detalhes passou um pouco da medida no modo de ver de quem vos escreve.

Contudo, críticas ao elenco (que ainda conta com a paticipação de Danny Glover e da brasileira Alice Braga)e à direção do filme (que toma um aspecto meio documental) são completamente descabidas. O filme em seu aspecto técnico é muito bom no geral, porém peca quanto à narrativa dos acontecimentos e afasta o público mais geral. Sabidamente, não se trata de um filme blockbuster ou de grande público, mas ser crítico, introspectivo da condição humana não é necessário que seja inatingível, intangível, é possível fazer um filme nessa linha e ainda manter uma narrativa menos amarrada. O balanço do filme é positivo, mas não vá assisti-lo esperando algo leve ou tranqüilo. A experiência é penosa e sabe-se que muitas pessoas não curtem ir ao cinema para ficar remoendo coisas ruins ou divagar sobre aspectos da psique do homem.

Intensidade da Força: 6,5

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